A casa de praia

Por VERA RENNER, blogueira do Litoral na Rede


Fazia certo tempo que eu me esforçava para lembrar o lugar de praia com todas as suas características e peculiaridades. Tentava visualizar os detalhes daquela casa que se abria de porta em porta quando o sol vinha dar sua cara quente a tapa, chegando com tudo e um pouco mais para fazer furor em todos os detalhes de uma rotina. Mesmo fazendo um esforço para enxergar o lugar percebi que o dia a dia rotineiro se internalizava de tal modo que não dava para sentir a existência de outro lado. Corri para resgatar a memória.

Já na rua também aquietada do litoral, fui chegando devagarinho, espantando algumas garças perdidas no vão da avenida, os cachorros de rua de rabo abaixado fuçando nada por ali, as lixeiras vazias das farras de verão, os ferrolhos calcinados pelo sol engrossavam a ação protetora de quem saiu sem olhar para trás. Ao percorrer a quadra fui percebendo que a calmaria instalada pelas estações deixaram suas marcas, com a rua com uma grama crescendo, a beira do mar com um espirito mais estranho, parecendo também circunspecto se adequando ao todo da paisagem que cerca a residência.

Nas casas de praia é assim, elas quase não superam estarem cerradas por um longo período porque foram erguidas com destino certo, estão construídas com primor em cada detalhe para que em seus recantos sopre o melhor vento e na velocidade almejada, que entre o sol abundante por todas as frestas e que as chuvas tenham ao chegar seus caminhos de volta conforme previsto. Tanto esmero e tanta diversificação para seu propósito somente combinam com a companhia das famílias barulhentas.

Larguei no chão tudo o que eu trazia da cidade incluindo e, em primeira instância, minha bolsa abarrotada de aparelhos de conexão que nesta casa não faziam sentido. Tirei dos ombros o pesado casaco, joguei longe as botinas e corri descalça por entre os cômodos. Varei com os olhos a tristeza que os ambientes revelavam e então percebi que para deixar em minha memória para sempre este mágico lugar de encontros de familiares e amigos, seria necessário que eu mesma, carinhosamente, fosse revelando ao tempo todas as suas conexões com a natureza.

Portas e janelas se abriram de par em par e assim a brisa fresca varreu com muito carinho o pó de praia que repousava nos ambientes e agora brilhavam ao sol, percebendo que era chegada a hora de sair de cena. As cortinas enfunaram como velas trazendo um sopro de vida para a casa, o sol invadiu com força a ambientação em um jogo de sombras encantador. Passei a mão em outra sacola, esta preparada para o que iria acontecer já de chegada. Enverguei todos os acessórios e rumei ao mar que já me aguardava com outra cara….. Nunca mais vou esquecer que sou duas.

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