Oração

Por VERA RENNER, blogueira do Litoral na Rede


Ando querendo interpretar tudo o que passa pela frente com certa fome de entender, com certo deleite em chafurdar no desconhecido sem ter vergonha do que poderá surgir. É assim quando nos dias de hoje o trinado que me acorda todas as manhãs não é mais aquele berreiro destemperado com dois ou três bicos querendo ser o que tem mais força. O sol que vai alumiando com vagareza o mar e os arrulhos dos passarinhos estão em meio tom, parecendo até que desejam um pouco de silêncio. Ouso interpretar que a natureza, assim como os praianos de carteirinha estão sob a forte ilusão de que se pode armazenar a tranquilidade, que se pode alimentar o desejo de ficar um pouco mais escondido no meio da temporada de flores, que pode talvez atrasar o relógio ou alterar as passadas do tempo inexorável.

Nas esquinas as conversas são quase boca a boca, sem, no entanto, vazar que possa ser um cochicho ou uma maledicência. No ar existe uma conspiração para que o tempo não ande, uma reza para que os ventos não parem, uma oração à beira do mar para que se revolte e se achocolate um pouquinho só, que os cômoros avancem sem trégua para tomar seu lugar de origem.

Tento decifrar a lerdeza no varrer das calçadas, a modorra da caminhada até a beira do mar com um arresto dos pés como se ali fosse depositar um último pedido, uma prece para que tudo fique do jeito que está.

Não me iludo com minha interpretação porque sei que apenas pertencem à mim, ao meu propósito de escolher a vastidão da terra como meu eterno pano de fundo, que minhas janelas jamais se abram para a multidão, que minhas cortinas possam filtrar o que não desejo enxergar e que finalmente, quando o verão chegar eu já tenha tido tempo para guardar em pequenas caixas todas as recordações do outono, do inverno e da primavera que me fizeram tanta companhia e que agora se recolhem para deixar entrar o tempo quente em todos os sentidos.

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