Ser mãe de uma criança especial…

Por Fernanda Menezes, blogueira do Litoral na Rede

Imagem meramente ilustrativa

Na semana em que se aborda a conscientização do autismo na sociedade, não poderíamos deixar de abordar um assunto ainda considerado tabu, um assunto que ainda envolve muito preconceito, na maior parte das vezes, por falta de informação.

A publicação de hoje no blog traz o relato emocionante da Simone, mãe da Luana, uma menina especial, diagnosticada com autismo aos dois anos e meio de idade.

Ao dividir conosco sua história, Simone dá voz a muitas mães de crianças especiais, que sentem o que ela sente, que ainda sofrem preconceito, que ainda recebem olhares tortos e que ainda, infelizmente, são alvo de comentários maldosos.

Enquanto mãe, vou usar esse espaço para dividir histórias lindas de vida e através delas tentar conscientizar as pessoas que no mundo que vivemos não existe mais lugar para pré-julgamentos ou preconceitos. Necessitamos usar nossas armas mágicas de mães, para criar e educar filhos melhores para esse mundo. Crianças não sabem o que é autismo e ainda assim fazem bulling com os colegas especiais. Crianças são reflexos de nossas atitudes. Crianças só precisam ser crianças e brincar, sendo especiais ou não. Então mães, por favor, menos julgamento e mais amor… Vamos sempre ensinar nossos filhos que o amor e o respeito são as armas mais poderosas para salvar o mundo…

Ser mãe de uma criança especial….

Minha filha é uma autista funcional, com 7 anos de idade. Foto: arquivo pessoal / colaboração

Se existe um sonho do qual jamais iria abrir mão, era o de ser mãe, e assim o realizei.

Minha gestação foi tranquila, acompanhada dela existiam expectativas, medos, idealizações e muitos questionamentos, tipo, será que serei uma boa mãe? Como será a minha vida após a maternidade? E minha filha como será? Perguntas que fazem parte da vivência de ser mãe de primeira viagem.

Luana nasceu, e com ela também nasceu uma mãe!!!

Não pude amamentar, pois minha filha não “pegou a peito”, ok, às vezes acontece.

Começou a caminhar tarde, me diziam para ter paciência, pois cada criança tem seu tempo. Ela verbalizou “mama/papa”, e depois não falou mais nada, pensei: nada que uma fonoaudióloga não resolva. Por último, nem sempre Luana atendia aos nossos chamados, mas tínhamos a certeza de que Luana ouvia bem, porque quando começava a música dos Backardigans , ela ficava faceira na frente da televisão.

Sou psicóloga, mas antes disto, sou MÃE, penso que a maternidade é puro instinto, e como filho/a não vem com manual de instruções, ninguém ensina, confiei no meu instinto e percebi que algo não estava legal no comportamento da minha filha. Aqueles atrasos do desenvolvimento começaram a me incomodar, eu quis por um instante acreditar naquele “tempo” que as pessoas diziam que minha filha deveria ter para apresentar um resultado positivo. Não esperei muito, desconfiada, fui em busca do material da faculdade que nos dá uma prévia do que é o Transtorno do Espectro autista (TEA) e também, eu dispunha de uma apostila de um curso (Autismo e Psicose Infantil) que fiz durante a época de faculdade e que dizia o seguinte na capa desta: Se você identificar 6 destes 10 sintomas do autismo, procure por um especialista. A minha conta fechava em 7 sintomas…SOCORRO!!!!! Eu dizia para meu marido que ela poderia ter alguns sintomas do quadro autista, o que não significava que ela fosse autista, neste momento eu estava querendo me defender desta situação , assimilando os fatos.

Fizemos vários exames médicos para descargo de consciência, tudo normal.

Até que uma amiga minha e colega de profissão indicou um pediatra do desenvolvimento que avaliou a nossa filha e nos deu o veredito: AUTISMO (Luana tinha dois anos e meio nesta época).

Foi uma noticia ruim, tivemos aquele impacto do diagnóstico, família mobilizada, pois nunca estamos preparados para lidar com esse tipo de situação. A partir disto, surgiram sentimentos de RAIVA, porque comigo?! , MEDO, o que será do futuro dela?!, PREOCUPAÇÃO, será que ela vai se desenvolver como esperamos?!, entre outros.  Neste momento, começamos a elaborar o luto daquela criança idealizada por nós pais, e que o autismo poderia encobrir com suas limitações próprias do quadro. Passado esse momento da noticia, da reflexão de como será daqui para frente, um dia ouvi uma frase de uma mãe de criança autista que para mim tornou-se muito significativa, enfim, um lema: DO LUTO, À LUTA!!!  Foi isso o que fizemos, meu marido e eu nos unimos ainda mais na busca desta melhor adaptação social da Luana. Fomos buscar mais informações sobre o assunto, e procuramos os profissionais da área da saúde, que pudessem nos ajudar a trazer a Luana para mais perto da nossa realidade, uma vez que esta síndrome chamada autismo, afeta a capacidade de comunicação do individuo, de socialização e de comportamento, (responder apropriadamente ao ambiente).

Hoje posso dizer que minha filha é uma autista funcional, com 7 anos de idade, está no segundo ano do ensino fundamental de uma escola regular, sabe ler e escrever, se relaciona bem com algumas colegas de sala de aula, tem uma vida social ativa. Tivemos muitas vitórias nesta caminhada, resultado de muito trabalho cognitivo, muita paciência, tolerância e que considero mérito dela, mérito de nós pais incansáveis na busca do bem estar da filhota, mérito da equipe multidisciplinar que trabalhou/trabalha com ela até hoje.

O que não significa que não tenhamos passado por algumas situações de tristeza, bullyng, e preconceito.  Já vivi a experiência de ver pessoas com um olhar de “pena” sobre a minha pessoa (mãe), por ter uma filha especial, inclusive já me disseram: mas ela é tão bonita, nem parece que tem autismo, como se autismo tivesse cara!!!!…… Já encontrei rostos paralisados de preconceito quando minha filha não tolerava ouvir a música do “parabéns à você” nos aniversários que comparecia. (nessas horas o meu refúgio com ela era o banheiro do local da festa). Considero meu maior desafio enquanto mãe de uma criança autista, distinguir o comportamento autista do desenvolvimento normal de uma criança, por exemplo, é birra ou desorganização emocional pela quebra da rotina???? Claro que com o tempo esse desafio começa a ficar um pouco mais fácil de decifrar.

Já vivenciamos momentos bons e ruins diante deste quadro que primeiramente nos apavora, pois ser mãe de uma criança autista não é fácil, temosbastante histórias para contar!!! Cada criança autista é diferente da outra, não existe experiências exatamente iguais, podem ser parecidas, por isso considero importante a troca de vivências porque através destas acabamos nos identificando com os comportamentos, e isto pode gerar um alivio por saber que não estamos sozinhos nesta jornada. É importante também ouvir as experiências e vivências dos outros para de repente se dar conta que o teu “problema” é bem menor do que você fantasiava.

Tenho que dizer que aprendi e continuo aprendendo muito com a minha filha Luana, minha princesa, minha companheira, ela me ensina todos os dias, e é com estes ensinamentos que me transformei em uma pessoa melhor, mais sensível !!! É com esta sensibilidade que me insiro no mundo dela, este mundo interno, às vezes um pouco difícil de ser decifrado, mas que tem me proporcionado respostas satisfatórias diante dos estímulos externos. Amo minha filha mais do que qualquer palavra pode traduzir!!!!!

Acredito que ainda há bastante preconceito da sociedade diante desta síndrome, percebo que a falta de informação das pessoas traz como consequência uma intolerância absurda em aceitar as diferenças. Lembrem-se que pessoas com autismo tem sentimentos também! Não queremos mudar a forma de como nossos filhos veem o mundo, queremos mudar a forma como o mundo enxerga nossos filhos.

Não meço esforços pelo bem estar da minha filha, e ela me corresponde a altura, com seu carinho, seu sorriso, enfim, minha filha, meu orgulho.

Por fim gostaria de deixar dois pensamentos para reflexão, que traduzem um pouco o meu sentimento em relação não só a Luana, mas também a todas as crianças portadoras de alguma necessidade especial:

“As crianças especiais, assim como as aves, são diferentes em seus voos. No entanto, são iguais em seu direito de voar”.

“Se você é mãe de uma criança especial, é porque você também é uma mãe especial…”

Simone, obrigada por dividir essa história linda e emocionante conosco, e pode ter certeza, se algum dia, em algum aniversário que for a porta do banheiro estiver fechada, lá dentro estarei Heitor e eu, e a abriremos para ti e para a tua filha, pois Heitor tem pânico de barulho e assim como a Luana, ele é uma criança que não gosta da hora do parabéns e muito já recorri a esse lugar ” secreto” para que meu filho ficasse mais calmo, sem medo.

Obrigada, por sua história, por ser uma mãe especial, sendo o porto seguro da Luana, e obrigada por falar de um assunto tão importante, que ainda necessita de muita atenção e debate para que possamos entender melhor as mães especiais e nos unir para combater qualquer tipo de injustiça, preconceito ou discriminação com nossos filhos, que especiais ou não, só precisam ser crianças e brincar e desenvolver em um ambiente com muito amor e carinho.

Simone, tenha certeza que não estás sozinha nessa jornada… Vamos juntas, buscar através da informação e comunicação mudar a forma como o mundo enxerga as crianças especiais…

Espero o relato, fotos, dicas e sugestões de vocês. Vale tudo, como: dicas de passeios, pracinhas legais, receitas de lanches saudáveis, dicas de viagens com crianças, liquidações de lojas e promoções de fraldas, enfim, todas as dicas que possam colaborar para elucidar dúvidas ou facilitar a vida das mamães!

  • Enviem por whats: 51 98419-6871
  • E-mail: fernandacomunica@outlook.com
  • Facebook: Fernanda Menezes
  • Insta: @soufernandamenezes
COMPARTILHAR