A companhia

Por Vera Renner, blogueira do Litoral na Rede

Imagem meramente ilustrativa

A vizinhança estranhava que todos os dias as duas cadeiras se postavam frente ao mar, sendo que uma delas parecia aguardar com pomposa resignação seu ocupante, mas contrariando a expectativa da massa ali ficava ela com imponência e orgulho, poderia dizer, uma vez que tinha um lindo design parecendo convidativa a alguém passar ali e largar seus ossos por um tempo pequeno que fosse. De fato isso nunca ocorria e os dias passavam sem alteração daquela posição mágica e instigante que deitava sonhos em quem tivesse dentro do seu coração sensibilidade para enxergar o que a obviedade passa por cima.

Marina não fazia caso dos cochichos maldosos dos “habituès” da orla porque tinha para si que mais faz quem relega a curiosidade a um patamar com dose obsoleta de prioridade e segue com seus modos porque são eles que lhe dão todos os afagos de que necessita. Para ela não havia ausência neste retrato.

Assim, todo dia se postava frente ao seu amor maior – o mar – e iniciava a conversa que colocaria pontos nos “is” de seus questionamentos que nesta altura da vida nem eram muitos. À bem da verdade andava se fazendo o devido favor de passar a caneta hidrocor preta nas frases que lhe vinha à mente para provocar tormento e seguia com suas elucubrações diárias com canto de olho virado para a cadeira que lhe fazia silenciosa companhia.

Passada esta fase, que sempre vinha à baila ao nascer do sol, a correria dos pensamentos se acotovelavam para ver quem chegava rapidamente à mente de Marina para acabar com aquela conversalhada de si para si que com tanta audácia vinha à tona como se não houvesse outra coisa na vida a considerar. Era aquele jogo de ontem hoje e amanhã que se imiscuiu na rotina como uma dança bizarra desafiando qualquer um a escolher o caminho a seguir. Marina não tinha, de certo, este viés, mas o oculto sempre vibra em todas as direções.

Os dias aconteciam já com um tom monótono porque a paisagem integrou os coadjuvantes silenciosos e assim as passadas que travavam no local em uníssono mesmo com ouvidos afiados, não conseguiam, de modo algum, adentrar no mundo misterioso daquela mulher que se assentava com tanto conforto, todos os dias, na beira da praia. Ela possuía uma altivez que parecia rejeitar o olhar do curioso.

Em um repente, em dia mais do que silencioso, tanto de ventos, passantes e ondas da beira mar que, aparentemente para muitos, o encanto do registro solitário foi quebrado. Marina estava em uma efusiva conversa com seu par onde os gestos acompanhavam a animada conversa brindada com muitos risos e alguns breques para pensar. O recado do retrato que de fixo se protocolou dinâmico era de animada discussão com um belo tom incolor de entendimento.

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