Águas de março

Foto: Márcia Bueno Cabañero

Abandono é coisa séria, mas por aqui, onde rola as areias do Litoral Norte é mais do que normal a prática do desertar, uma vez que nosso endereço, em sua maioria, dança conforme a musica, o que quer dizer que existe no calendário anual ocasiões específicas em que a vida se agita para mais. Pensando metaforicamente, o olhar de cima poderá contemplar a evasão do povo com todos os seus pertences se dirigindo praticamente para um só logradouro, como uma massa real que vai se confundir com a selva de pedra de cada um.

Para quem fica, a urbanidade volta ao modo praiano blindado pelas características do mar que peremptoriamente toma posse de sua parte neste quadrado que por algum tempo ficou ao dispor de corações desconhecidos em sua maioria.

Os que ficam tem amor ao lugar e lhe deve seu sorriso todo santo dia porque não há como não se deslumbrar frente ao oceano, este maioral que regula o humor, que alonga o olhar ao horizonte trazendo a paz por mais que haja conflito, que resfria o corpo para então chegar à consciência, que comanda a brisa que enfuna as velas dos pesqueiros e, mais que tudo compactua com devoção para o sucesso de nossa fauna e flora assim como toda a performance da natureza aos seus pés.

E lá vamos todos praianos de carteirinha usufruir alguns meses onde não precisamos dormir ao som de bate-bum nenhum, de se imiscuir no mar de guarda-sóis na beira da praia, de ficar na fila do pão como ilustre desconhecido, de não poder andarilhar por ai, não conseguir ouvir o canto dos pássaros e pior do que tudo, na linha do horizonte sempre há uma inconveniência. Então fica a certeza do acerto na escolha da beira do mar para viver, seja na juventude seja na velhice, sempre é tempo. Amém.

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