Dia dos Namorados

Por Vera Renner, blogueira do Litoral na Rede

Imagem meramente ilustrativa

Sofia andava fuçando em todas as suas gavetas, tanto as físicas quanto as da alma, sem nenhum propósito aparente, havia baixado o santo da organização naquela semana e nada no mundo lhe tirava do eixo das descobertas empoeiradas que ia desvendando no decorrer das horas. Suas costas doíam, os olhos lacrimejavam e ela não sabia direito se era da poeira dos guardados ou se sua alma queria sair dos trilhos e vagar como se fosse gente grande neste quarto abarrotado de pertences.

No fim e ao cabo os dois – sentimentos e alfarrábios – iniciaram uma caminhada de paz se alternando no que surgisse e assim, de pronto, álbuns e mais álbuns desde sua tenra infância surgiam como por milagre de gavetas que até pareciam ter fundo falso. Ficou pensando em que canto da vida havia jogado estas lembranças que somente agora lhe apareciam. Depois, pensando melhor, achou que deveria ser porque nunca baixa a cabeça e nem o nariz, anda sempre com o olhar fincado no que vem depois, acaçapando o ontem e deve ser por este motivo que a rotina se encarregou de cobrir de pó sua história.

Cansada, levantou-se do mochinho que lhe servia de apoio ao jogo do descobrimento de coisas, quando lhe caiu aos pés aquele diário, amarfanhado do manuseio, amarelado e com algumas teias de aranha lhe envolvendo com simetria impecável sua capa. Levantou-se com vagar porque, de repente, lembrou-se de uma época de sua vida, bem lá atrás, em que mantinha aquele livreto junto a si e por ali ia anotando segundo a segundo um amor.

Delicadamente limpou a peça e iniciou seu folhear com cuidado porque o caderno estava maltratado pelo tempo. Neste momento sua ilusão voltou a tempos bem antigos. As primeiras páginas se encontravam perfeitas, mas à medida que a historia evoluía surgiam algumas manchas no papel ocasionadas, provavelmente, por lágrimas abundantes e joviais que enrugavam com capricho algumas folhas sendo seguida, ora veja, por uma descrição de muita felicidade. Sofia foi avançando rapidamente porque tanto quanto ia lendo, as lembranças lhe vinham à mente aos borbotões. Chegou finalmente aonde queria. Em meio àquele diário recheado de amor juvenil se encontraram em lados opostos duas páginas com fundo negro. Emocionada pela lembrança Sofia dobrou cuidadosamente duas das páginas e assim, depois de tanto tempo terminou aquele namoro, que, pelo menos naquele caderno, estava vivo.

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