Litoral Norte, do começo ao fim

Por Vera Renner, blogueira do Litoral na Rede

Foto: Mar Pedro Abreu / colaboração Litoral na Rede

A extensão é imensa se pensarmos nos quilômetros que permeiam o litoral oceânico do Rio Grande do Sul reinando de norte a sul com uma paisagem sem grandes surpresas, passando, é claro, por inúmeros lugares, vilarejos, faróis, e muita gente esquecida por Deus ou que por vontade própria rumou para outro plano de vida mantendo os pés na areia. E assim vai se estendendo pelos confins da beira da praia todas as histórias que vão sendo contadas e outras que vão sendo descobertas. Sem falar nas inventadas, porque na falta de preocupação a imaginação pode correr solta e incendiar as rodas de chimarrão com muita prosa e muita risada.

O percurso – aparentemente monótono – é quebrado pelo humor indomável do mar que vai caprichosamente alterando a orla conforme seu conluio com a lua e o clima. Inseparáveis, andam juntos pela eternidade e assim vão se divertindo por entre tantas dunas e tantos lugares da encosta, uns mais bafejados pelo acumulo de gente, outros ansiosos pela solidão e silencio. A orla é generosa e vai abrigando tudo e todos de qualquer gosto para viver. Apesar de voluntariosa, as beiras da praia se orgulham de quem lhe prefere para morar.

O corredor salgado praticamente não provê obstáculos para quem deseja nele se enveredar, voar, velejar, viajar de jipe, a cavalo, carroça ou o que mais aprouver. Com persistência, porém, gosta de brincar com obstáculos porque a natureza é sua rainha e a ela deve devoção.

Este caminho sem convulsão aparente toma um choque ao se aproximar o norte dando de cara com uma topografia totalmente inversa do que até ali a trilha levou. E assim erguem-se majestosas formações rochosas que se formaram há milhões de anos trás, com a distribuição impressionante – visto o caminho monocromático até ali – de montanhas, morros recifes e fragmentos perdidos de sua origem que, por capricho da natureza, dali não quiseram ou não puderam se desgarrar, ficando assim afilhotados na grande erupção do passado. É bem verdade que se toma um choque visual ao adentrar a última cidade litorânea do Estado deslumbrando-se o olhar frente ao inesperado. Uma surpresa parecida com a vida da gente, talvez depois de um monótono caminho de vida sempre pode surgir uma topografia diferente aligeirando nossos pés em meio a novos pedregulhos.

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