Medo

O sossego de vagar por ai como se não houvesse amanhã se evadiu de todos nós, não podendo hoje em dia haver possibilidade de andar para o trabalho, para o lazer ou, simplesmente, ir até ali na beira do mar fazer uma reza sem se preocupar que se esteja sendo seguido, que por detrás de cada touceira haja um observatório, que em cada esquina dois ou mais grandes pares de olhos observam modos, gestos, postura. De qualquer modo, o big brother do mundo está dentro e fora da nossa cabeça e muito por conta desta desarrumação da vida de todo mundo.

Difícil de acordar e estremunhar com lentidão para ver o que a natureza está aprontando, se vem com sol, se vem com chuva e neblina, se é inverno ou verão porque o sono foi profundo e este acordar deu certa amnésia sobre o que anda acontecendo. Tudo isso pode parecer de uma simplicidade absurda, mas não é. Antes de colocar seus chinelos no portal da casa melhor indagar nos alfarrábios da internet se o dia vai estar para peixe ou se vai ter de tirar os coturnos do armário, uma camiseta bem fresquinha ou talvez, aquele colete a prova de bala que, embora se relutasse na aquisição se fez necessário, uma vez que a vila ali adiante não anda com uma fama muito boa.

É desta forma inerente à realidade que a informação chega antes do pé na porta, que se antecede ao pensamento, que fura a fila antes de chegar à padaria, que reúne todos os instrumentos de proteção em um lugar só para frear o medo de se chegar descalço no alpendre, de, sem lavar a cara correr para o açougue, ir de pijama tomar o chimarrão na beira do mar. Nestes tempos airados e instantâneos somente sabendo um pouquito de nada sobre o que acontece, já é de grande conveniência.

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