“Meu filho é gay, e continua sendo meu filho amado”

Por Fernanda Menezes, blogueira do Litoral na Rede

Foto: divulgação / Arquivo Pessoal 

“Confesso que a possibilidade de ter um filho gay não me causou tristeza, causou medo do que ele teria que enfrentar, dos olhares maldosos, de ser considerado diferente, em suma do preconceito”.

Sim, infelizmente ainda vivemos em uma sociedade injusta, intolerante e preconceituosa. Sim, ainda ouvimos prefiro ter filho gay do que drogado. Sim, ainda ouvimos falar em cura gay. E sim, muitas pessoas ainda sofrem preconceito pela cor de sua pele, por sua crença ou por sua opção sexual.

E SIM, vamos usar esse espaço para contar histórias de pessoas que sofrem preconceito; de mães que sofrem pelo preconceito que afligem os filhos. Vamos contar histórias reais, de pessoas normais, que querem acima de tudo respeito. Vamos usar esse canal para tentar fazer com que as pessoas percebam que não é normal e não pode ser encarado com naturalidade a morte de pelo menos um LGTB por dia no Brasil. Vamos usar nossa força, de mulher e mãe, para tentar educar filhos melhores para esse mundo. Sim filhos melhores. Não melhores que alguém, mas iguais, diferentes, respeitando a diversidade e pluralidade. Isso mesmo, não podemos querer um mundo melhor se não educarmos nossos filhos e tudo inicia em casa. Respeito e amor são ensinados através de exemplos. Há muito já se dizia: “o mundo não precisa de opiniões, precisa de exemplos”. E nós precisamos de mais exemplos de pessoas tolerantes, educadas e sociáveis no mundo. Nós precisamos de mais exemplos de amor.

E o exemplo de hoje é da mãe do Pedro. Exemplo de mulher e de mãe. A mãe do Pedro, a Beloni.

Pedro é meu colega de academia e ele é gay. Pedro é um dos caras mais legais que conheci nos últimos tempos. Divertido, alegre, leve, responsável, educado, com princípios e caráter admiráveis. Mas ele é gay. Pedro sofre preconceito. A sociedade ainda, nesse século, o olha de cara torta. Pedro não vende drogas, não usa drogas, não comete crime do colarinho branco, nunca bateu em mulher…mas a sociedade ainda o vê com maus olhos. Mas porquê?  Ah, esqueci, o Pedro é gay.

Sorte a do Pedro de ter nascido em uma família cujos princípios são baseados em amor e respeito. Sorte a do Pedro ter uma mãe e família que o respeita independente da sua escolha sexual. Sorte a nossa podermos contar essa história e tentar dizer ao mundo e a parte da sociedade que ainda conserva valores machistas que o Pedro merece o mesmo respeito que todos e que não deve sofrer violência, bulling ou ser menosprezado por ter tido a coragem de ser quem é. Sorte a da Beloni em ter o Pedro como filho. Sorte a do Pedro em ter a Beloni como mãe.

Quantos filhos será que ainda tem medo da reação dos pais ao pensar em ser quem realmente são? Acredito que se educarmos nossos filhos para combater a intolerância, poderemos ter uma futura geração onde se respeite e discuta gênero, e onde o amor vença todos os preconceitos e que todas as mães consigam dormir sabendo que seus filhos não serão alvo de preconceito ou de violência, pois a segurança e respeito são valores educados desde pequenos, em casa.

O relato de hoje, está emocionante e merece nossa reflexão em cada linha escrita por essa super mãe e também objetiva homenagear todas as mães nesse nosso mês. Obrigada Beloni por dividir conosco a história de tua família! Tu é um exemplo!

“Começo agradecendo à Fernanda por esta oportunidade de permitir a nós mães relatarmos um pouquinho sobre este infindável universo que é a maternidade.

Meu nome é Beloni Campos, tenho 56 anos, sou advogada, moramos em Tramandaí e temos, o Jaime e eu, uma união estável de 30 anos.

Indo para o tema deste post, a maternidade, geralmente somos levados de imediato para a gestação, o nascimento e os primeiros anos de vida, como se a vida dos filhos se definisse neste período de tempo. Claro que as emoções desta fase são importantíssimas, mas à medida que o tempo vai passando, podemos observar que a maternidade é um eterno aprendizado e que aquilo que temos como certo hoje, amanhã já é indefinido. Não que as crianças sejam instáveis e inseguras, não, é que as novas gerações se dão o direito de mudar de ideia, opinião, profissão e isto sem problemas algum, sem stress, sem medo de serem felizes.

Temos três filhos, uma menina de 27 anos, um menino de 24 e a caçula de 22 anos. Os dois primeiros podemos considerar que foram planejados, a nossa caçula, não menos amada, veio numa escapada. A primogênita tínhamos certeza de que seria uma menina, e foi. Passados uns dois anos resolvemos que teríamos o segundo bebe e ai pensamos, agora vem um menino, nesta época já era mais comum fazer ecografia e assim descobrimos que viria o Pedro Henrique.

Ficamos felizes e como da primeira vez os planos e sonhos para este menininho, sem demagogia, eram praticamente os mesmos da Fernanda. Sempre fomos muito pé no chão, antes de sonhar, nossa meta era de que queríamos filhos íntegros, honestos, educados, que estudassem muito, sem que tivéssemos que forçar a isto e que prezassem o que lhes ensinaríamos. Nosso maior medo sempre foi do apelo negativo das ruas, mas hoje temos a certeza de que esta parte vencemos. Temos três filhos maravilhosos.

Buscamos ser o mais presente possível na vida de nossos filhos, muita brincadeira, muito passeio, não grandes, mas com muitas descobertas, leitura sempre, escola em primeiro lugar e assim passava o tempo. Desde cedo as crianças fizeram parte de CTG e o Pedro, bem pequeno além de dançar em invernada, participava da parte campeira com o Jaime, fazia cavalgadas, acampava, caia de cavalo e como era muito desenvolto fazia amizades muito rápido. Carismático, sabia com muita maturidade, mesmo sendo um pirralho de olhos azuis, ser um bom conciliador. Sempre rodeado de amigos, quase sempre se tornava um líder.

Hoje sei que muito cedo constatei a homossexualidade do Pedro. Isto foi ficando muito visível para mim a medida que sua liderança se solidificava. Os meninos, até onde podia observar, na sua maioria gostavam da companhia dele, até por que criança não tem preconceito, quem tem são os pais. Mas o que me fazia ter esta certeza era a sua sensibilidade, isto encantava principalmente as meninas, que se aproximavam por se sentirem seguras, tinham nele um amigo leal, alguém que as entendia. O Pedro sempre teve e ainda tem facilidade de compreender as pessoas.

Foto: divulgação / Arquivo Pessoal

Confesso que a possibilidade de ter um filho gay não me causou tristeza, causou medo do que ele teria que enfrentar, dos olhares maldosos, de ser considerado diferente, em suma do preconceito. Sempre tento não sofrer por antecedência, acho que temos sim que nos preocupar com o que está ou o que possa vir a acontecer, planejar, mas com o que temos certeza, sem “achismos”. No momento em que senti este Pedro, não vi necessidade de falar sobre isto com ele, até porque o menino tinha uns oito ou nove anos, não teria como chegar e perguntar: “Meu filho tu é homossexual?”. Tratava-se de uma criança e ai sim o que já estava se tornando natural e normal para ele, poderia se tornar um problema. 

Normal, sim, porque para mim, mesmo tendo percebido esta possível mudança de opção sexual do meu filho, ele continuou sendo o meu Pedro. Tudo tem seu tempo, a vida é feita de fases e não acho saudável atropelá-las. Continuei amando como sempre. 

O que passei a sentir mesmo, foi apreensão e medo de represálias. O meu amor, a minha admiração por ele não mudou em nada, mas o que se tornou constante foi a preocupação com o mundo lá fora. Não com o que iam pensar, achar, mas é que as pessoas sabem ser cruéis com aqueles que se diferem dos estereótipos sociais. Medo da violência que os homossexuais sofrem todos os dias. Afinal, se hoje o preconceito ainda é grande, imagina há 16 anos atrás?

Daquele tempo até a pouco, posso dizer que vivi em constante alerta, cuidando para que o mundo não o esmagasse. Não que a opinião dos outros fosse me afetar, isto nunca me preocupou. O meu medo era de ele ser magoado e isto fazer com que se escondesse da vida.

Não senti necessidade de compartilhar com ninguém sobre o assunto, até porque sempre achei que primeiro o Pedro tinha que se descobrir, a vida é dele, eu, como mãe tinha somente que conduzir a sua trajetória. Também porque a maioria das pessoas ainda é muito preconceituosa.

Não conversei com o Jaime sobre a sexualidade do Pedro naquele momento.

Sempre digo que meus filhos tem o melhor pai do mundo, porque por eles o Jaime se transforma, aceita, luta, educa, chora e mesmo sendo difícil, encara o mundo. Temos uma relação de muito diálogo, mas confesso que sobre a possível homossexualidade do Pedro ainda menino, não consegui falar com o Jaime, mesmo porque não tinha uma certeza absoluta e também por não saber como abordar o assunto. Falar de uma forma geral é fácil, quando é com a gente fica mais difícil.

Eu, como mãe, sinceramente não me choquei, apenas resolvi aguardar, mas, mesmo vivendo sempre ao lado do Jaime, não me senti segura para falar sobre o que achava, sobre o que estava percebendo. Neste momento muitas dúvidas, até porque eu poderia estar equivocada, também porque como mãe tenho dessas coisas, quando imagino que algo vai acontecer, já vou me preparando, é mais fácil, se acontecer já estou pronta para a guerra.

O tempo foi passando e adolescente o Pedro começou a namorar uma menina, neste período cursava o ensino médio e por vezes alguns meninos o taxavam de gay, mas o Pedro sempre foi muito bem resolvido, não entrava em polêmicas e com diplomacia passava por estes momento quase sempre ileso, mas mesmo assim houveram alguns episódios mais sérios e que à época ele mesmo nos trouxe. Não paramos para avaliar se o Pedro era ou não gay, como estavam dizendo, naquele momento estávamos todos juntos, eu, o Jaime e as irmãs. O que fizemos foi mostrar para as pessoas que lhe apontavam com o preconceito, tentando lhe negar algo, era de que o Pedro, independente do que fosse, tinha o direito de ser tratado como igual.

Por um tempo, até achei que minhas certezas não eram tão certezas assim, porém passado uns três anos comecei a perceber uma certa angustia no meu filho, mas ele não se abria, acho que ainda tentava se descobrir. O namoro terminou e para mim ficou muito claro, ai passei a esperar que me falasse. Foi o período que sofri, pois tive que esperar o tempo do meu filho, esperar que ele viesse até nós e se abrisse. O que fiz foi ficar cada vez mais junto dele, falar muito, sobre tudo e sobre todos, acho que até exagerei, mas não me arrependo, foi a forma que encontrei de mostrar para ele que estava do seu lado.

E chegou a hora em que ele nos chamou e disse que era homossexual. Não fiquei surpresa, fiquei foi aliviada pois o que mais me preocupava era a possibilidade de perder o meu filho, de vê-lo sair de nossas vidas por achar que não o entenderíamos. Não foi uma conversa longa, mas foi o suficiente para o Jaime perguntar se o Pedro continuaria a nos respeitar como até então, se continuaria aceitando nossos conselhos e principalmente, que continuaria a ser a pessoa honesta e responsável que era até então, que buscaria ser um bom profissional, pois a sociedade, infelizmente ou, hipocritamente só respeita quem assim se coloca.

É fato, aqueles que assumem sua homossexualidade, acaso não consigam se fortificar, não consigam se faze respeitar, a sociedade, mesmo que já tenha mudado bastante em relação a questão de opção sexual, esmaga os que coloca como “diferente”. Ainda temos muito quer evoluir, ainda há muitas mentiras, muita regra social hipócrita, muito preconceito.

Para mim, posso afirmar que foi mais tranquilo quando o Pedro assumiu sua homossexualidade do que todo o período em que esperei por isto, neste momento não estava mais sozinha, podia, dali para frente, assim como ele, também falar das minhas angústias, medos. Ficou mais fácil de encarar os possíveis ataques externos. Nossas filhas são pessoas esclarecidas, como irmãos tem suas diferenças, batem de frente em muitas coisas, mas se respeitam e não aceitam que estranhos ofendam os seus, nada mudou. O Jaime, como em muitos momentos de sua vida, se reinventou, se moldou ou melhor, o amor foi maior que qualquer outro sentimento que poderia ter naquele momento. Não cogitou em nenhum segundo que nossa família se dividisse, amamos nossos filhos, respeitamos os adultos que criamos e eles nos respeitam, esta é a regra.

Apoiados por nós creio que ficou mais tranquilo para o Pedro assumir lá fora a sua orientação sexual e eu também me senti mais segura para defender o meu filho. Concordamos que o Pedro não necessita sair com uma plaquinha dizendo “eu sou gay”, mas também temos a certeza que não precisa esconder sua escolhas, seus sentimentos, seu namorado. Digo a ele que temos a nossa vida, e que dia a dia, cuidamos dela, sem ultrapassar os limites dos demais, então temos que nos fazer respeitar. Se alguns da sociedade não quiserem aceitar a escolha do Pedro, estarão não nos aceitando também. Esclarecemos que problema deles não nos aceitar, porque nós continuaremos em frente, felizes por fazer parte desta geração que assume o que quer, não por conveniência, mas por convicção, por escolha própria.

Mesmo assim, sendo resolvidos entre nós, tenho grandes preocupações com a vida fora do nosso ninho, não pelo que vão dizer, achar, isto não me incomoda, o que faz sentir medo é que o preconceito na sociedade ainda é muito grande. Não posso deixar de ver que na maioria das ocasiões em que ocorre algum tumulto, discussão, quem primeiro sofre agressão são os homossexuais, as lésbicas, os negros e assim vai. O mundo ainda tem muito de homofobia, racismo, preconceito, por isto que digo as mães e, no meu caso mãe de homossexual, amem demais os seu filhos, não tenham vergonha de assumi-los, pois se não formos as primeiras a fazer isto, lá fora eles ficarão expostos, frágeis. Não busquem culpas, explicações, não tenham vergonha da sua obra, quem pariu, quem cuidou, criou, foi você. Não tenham medo de amar. Famílias perfeitas só em comercial de margarina. Na vida real não existe perfeição, o que existe são pessoas que não se expõem, devemos entender se assim quiserem.  

Quanto aos nossos filhos, devemos aceitá-los verdadeiramente, não manda-los embora por suas escolhas sexuais, continuam sendo os mesmos filhos. Se não os defendermos, poderão ser sugados pela sarjeta, sem o nosso amor ficará mais fácil a companhia dos maus caráter, das drogas, da prostituição, por fim a decadência do ser humano.

Para mim o Pedro tão somente não tem uma namorada, tem um namorado. Posso dizer que pouca coisa mudou ou quase nada. Tenho o mesmo Pedro Henrique que nasceu a vinte e quatro anos atrás, agora com mais tranquilidade.

O que posso afirmar com muita certeza é que o meu amor nada mudou.

Espero chegar o dia em que os nossos adolescentes não precisem mais informar sobre sua decisão de ser isto ou aquilo, de ser menino ou menina, que eles apenas possam ser o que mais lhe faça feliz, serem apenas pessoas”.

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