No armário, a fantasia do verão se esconde

A morada da praia tem sempre o mesmo clima no verão e muitos não imaginam o que acontece fora de temporada. Não conhecem o vento gelado cortando as ondas sem fim, onde suas espumas desenham lindos arabescos, escarnecendo do clima que caracteriza fortemente todas as estações do ano nestas paragens. Chegada a hora de recompor as energias das tarefas corriqueiras que foram deixadas de lado por alguns meses, as pessoas se voltam ao seu espaço, agora desocupado. Até as almas se sentem menos afobadas e arrefece a doideira do calorão.

O mar é o mais brincalhão e não se cansa de se esfuziar indômito, sendo diariamente a atração número um para quem usufrui deste lugar. Há sempre um olé na beira da praia, uma flor jogada aos pés dos santos, um casal de namorados bem juntinho trocando juras, pedreiros consertando o passeio, jovens patinando com muito espaço, idosos caminhando lentamente, aproveitando a hora.

Nesta época, quem escolheu a cidade praiana reina absoluto em suas calçadas, seus caminhos esvaziados, suas areias redesenhadas pela brisa cotidiana. É a ocasião de adivinhar o futuro nas próprias pegadas que por uns bons instantes não se dissiparão. Sempre há tempo para repensar, para mudar de ideia, para solicitar ajuda a Deus, para pedir socorro, para pedir desculpas, para se alegrar apenas por estar vivo naquele dia. O tempo junto da natureza é generoso e espalha sua disponibilidade a quem interessar possa.

É neste período que as aves de todas as espécies invadem seu habitat natural retomando o lugar dos chinelos, guarda-sóis, isopores, cangas, cadeiras e ambulantes de todas as mercadorias. O som espetaculoso do verão dá lugar a algaravia das tatuíras, dos siris, dos caramujos em suas conchas, dos peixes de onda pequena que, de natureza fugaz e brincalhona, desafiam a beira do mar porque ali inexiste a tarrafeada, e a hipótese de parar na frigideira é remota.

De repente, um pouco cansado de se turbinar no momento de folga, o oceano se descontrai e inicia o dia escarnecendo do clima. Faz o vento parar e assim a dança se transforma num ritmo cadente, lento, romântico e enamorado. O sol se emociona e aquece toda a orla respeitando o silêncio que a natureza impõe. No armário, a fantasia do verão se esconde.

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