A vida é um sopro

Por Vera Renner, blogueira do Litoral na Rede

A maratona já estava em andamento há muito e talvez não fosse mais tão necessário aquele esforço físico próprio e dos seus comparsas para que sua voz fosse ouvida um palmo acima dos demais, mas a disposição e o comprometimento de acordar quem por acaso estive surdo às mudanças propagadas era mais importante. E assim foi, incansável e nos braços de quantos o quisessem carregar e de certo modo desatento aos perigos da vida, do mundo e principalmente, do entorno próximo. Em segundos o sorriso verteu sangue e como um sopro o corpo caiu. Não era a hora.

Despertar com o sol e sair para tratar da vida move todo mundo, uns mais confortáveis em centros urbanos, outros menos, mas certamente com olhar cristalino para o horizonte, pulmões cheios de ar puro e mãos calejadas pelas lidas com a terra. Levantar as enxadas, ligar o trator, usar roupas de tropeiro com orgulho se torna o “carpe diem” da vida daquele lugar. Não importa muito se os sorrisos são desdentados e o cabelo rareia cada dia mais. A conversa engatilhada vai andando animada sobre os ventos e as chuvas da estação, se raras, se abundantes. Do nada, como um sopro, as vozes se calam, os semblantes se fecham e as vidas somem diante da avalanche de lama.

Riso fácil, fala rápida, agilidade no corpo impressionante e uma juventude com todas as chances do mundo em aberto. Apenas há que dar uma espiada no universo e escolher. As escolhas já haviam sido feitas assim como todas as nuances para que o processo de uma vida fosse iniciado com afinco. Disciplina e alguns – ou muitos – sacrifícios são exigidos desde muito cedo para quem tem na mira aquele norte.  Em algum ponto a vida foi deixada em cuidados de outrem, como não poderia deixar de ser neste caso. E com esta maneira bizarra detalhes considerados improváveis foram negligenciados e o acolhimento refrescante em uma noite de sono qualquer, como um sopro, incendiou todas as perspectivas.

Bastou ver a fala, a voz e o semblante da mãe para reconhecer o filho. Aquele que deitava a voz nas manhãs em direção a tanta gente que nem dá para imaginar, aquele que com um riso tão fácil constrange carrancudos, aquele que com olhar bravo cintilam os olhos azuis e o vivente fica sem jeito sem saber ao certo se é bronca se é aprendizado. Na duvida, melhor acatar e deixar para depois uma explicação que certamente virá como uma aula importante praticamente impossível cabular. A vida foi essa com uma impressionante unanimidade deixando perplexos gregos e troianos, cristãos e ateus. De repente, do ar para terra, como um sopro se vai.

* A Vida é um sopro é uma frase do arquiteto Oscar Niemeyer

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